São Paulo, 2 de março de 2018

Mario Covas Neto: discurso de saída do PSDB

Na noite desta quinta-feira, 1,  Mario Covas Neto anunciou sua saída do PSDB em evento realizado na capital. Leia a seguir o discurso feito pelo vereador na ocasião:

“Este partido há de ser um partido livre, há de ser um partido com a sua crença fundamental em cima do maior de todos os valores que uma nação possa ter: o seu povo. Ele nasce para que o povo possa ter, efetivamente, um instrumento a seu serviço na luta pelos seus direitos; e este partido nasce com a democracia”.

Palavras de Mario Covas, meu pai. Uma das mais importantes lideranças da política nacional, conhecido pela ética, responsabilidade, entusiasmo e dedicação à vida pública. Foram pronunciadas em 1988, ao final da assembleia de fundação do PSDB.

Longe das benesses do poder, mas bem perto do pulsar das ruas, do cidadão brasileiro, o PSDB nasceu plural. Seu próprio nome foi escolhido por meio de uma votação.

Seu programa de criação, seu estatuto e manifesto não foi tarefa de um único autor, mas resultado da união de um grupo de lideranças públicas com valores e princípios sólidos, que não se conformavam apenas no exercício do poder pelo poder, mas demonstravam que é possível fazer política com integridade, justiça e excelência. Lembro que muitos deles se atreveram a sair de seus cargos de governo para provar ao Brasil, em sua recém reconquistada democracia, que era possível fazer política de um jeito diferente.

O PSDB mostrava a sua cara: convidou o povo para que juntos, prosseguissem na luta pelas mudanças que o país exigia com energia redobrada, através da via democrática, do Estado de Direito e não do populismo paternalista e do autoritarismo concentrador do poder e da riqueza.

O PSDB não nasceu para ter donos.

Tive a honra de participar desde sua criação, e com enorme entusiasmo acompanhei as repetidas demonstrações de força de figuras como Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, José Richa, Mario Covas, entre outros, em vencer a descrença popular nos partidos, nos políticos e nas instituições.

Revezando a cadeira da presidência do partido a cada dois meses, esses e outras lideranças públicas redefiniram os rumos da política nacional e conquistaram a simpatia popular e governos legítimos em curto espaço de tempo. Rumos que, infelizmente, foram se perdendo com o passar do tempo e reduzidos a zonas de conforto em governos.

O PSDB passou a sucumbir ao mal que combatia e que foi a razão de sua origem. Também passou a ser encarado por muitos como uma espécie de trampolim para chegar à máquina pública, cegos aos seus ideais e alheios aos seus  fundamentos.

Em um dos programas eleitorais que fiz em 2012, quando ainda era candidato ao primeiro mandato de vereador, afirmei: “Acho que o PSDB deveria e deve retornar à sua origem, deve ser um pouco mais seletivo, ser um pouco mais uniforme e manter o discurso”.

Como vereador da cidade, como membro da bancada tucana na Câmara Municipal e como presidente do diretório municipal de São Paulo, tudo o que fiz foi trabalhar para ajudar a devolver ao PSDB a sua mais íntegra identidade.

No entanto, aos poucos fui percebendo que minha voz não ecoava mais e a frustração só foi aumentando.

Aconteceu, por exemplo, ao testemunhar o comportamento omisso do partido no caso da manutenção do cargo de um presidente nacional, alvo de graves acusações e que não podia mais ser o maior representante de um partido criado a partir da égide da ética, da correção e da boa gestão pública.

Aconteceu ao ver o partido incapaz de unificar seus representantes em torno da necessidade de aprovação da reforma da previdência, imprescindível para que o Brasil volte a crescer de forma sustentável e diretamente ligada ao compromisso do PSDB, de zelar pela estabilidade econômica do país.

Aconteceu ao acompanhar a incapacidade das alas do partido de se entenderem em prol da discussão interna clara de temas, bandeiras e objetivos a serem atingidos.

E a decepção não é só minha. No ano passado, o PSDB perdeu apoios históricos que com ele lutaram a favor do Brasil em momentos cruciais. Elena Landau, referência da legenda no setor econômico, encerrou seu período de 25 anos no partido dizendo: “O PSDB virou um grande PMDB, agarrado em cargos”. Gustavo Franco, um dos formuladores do Plano Real, pouco antes de sua partida, assinou uma carta na qual afirmou que o PSDB “optou por deixar vazio o centro político ético de que o país tanto precisa”.

Se antes o PSDB se destacava por ser um partido de líderes que indicavam os caminhos, hoje, infelizmente, tornou-se um “partido de donos”, que determinam os caminhos que lhe interessam.

 No próprio cenário municipal, o prestígio à instituição PSDB ficou em segundo plano. Aqui também passou a prevalecer o apreço pelo poder e pelo toma lá dá cá que o garanta.

Tal realidade segue em sentido extremamente oposto ao que acredito e ao que deixei claro em meu discurso na eleição da mesa da Câmara Municipal no dia 1º de janeiro de 2017.

Disse em minha fala: “Nosso Executivo Municipal é do mesmo partido, mas não espere de nós um ‘amém’, um ‘assim seja’. Creio na independência dos poderes. A população espera que tenhamos novas atitudes e não continuísmo do que foi um mal no passado. Espero um basta aos representantes que sempre se posicionam ao lado do poder – qual seja ele. Chega de conluios, compadrios e de sermos comparsas de atitudes mesquinhas e contrárias ao interesse público”.

Com tristeza, observo o PSDB moldar sua prática conforme as conveniências de alguns de seus nomes, e não segundo suas raízes partidárias.

Quando questionado sobre sua saída do PMDB, o então governador Franco Montoro disse: “quando a fisiologia domina setores muitos amplos do partido, torna-se impossível essa convivência. É preciso optar. A ruptura é dolorosa, mas necessária”.

Já Mario Covas destacou: “Saí do PMDB quando eu achei que começou a ficar complicado conciliar o meu discurso em cima do palanque com a política do partido”.

Por essas mesmas razões, anuncio hoje minha saída do PSDB.

Quem me conhece, pode imaginar como essa decisão foi dolorida, afinal de contas estou falando da minha vida e ainda não sei o que será tirar de mim o Partido da Social Democracia Brasileira.

O que ninguém pode tirar de mim são minhas filiações e heranças provenientes. Só minhas atitudes fazem essa correspondência. Minhas escolhas ou reafirmam ou escondem isso. Mas confesso: destas todas, uma não é mais reconhecível. Não vejo mais o PSDB como via. Não sinto mais os abnegados que se entregavam pela causa. O que me comoveu e inspirou, não existe mais.

O que vejo são projetos individuais de mando, deslealdade entre companheiros, desprezo e incompreensão ao verdadeiro motivo da existência do partido. Compadrios entre frações que desistiram do todo.

Como ex-presidente do PSDB na capital, doeu muito o tratamento dispensado ao partido por quem é tucano e deveria entender a luta. Com certas ressalvas, percebi usos indignos de tudo o que ele representa. Relegá-lo a um instrumento de governabilidade foi uma ação mercenária. É isso o que a “real política” quer. Liberar-se das amarras sociais e dos compromissos coletivos.

Lamentavelmente, não acredito mais que o PSDB volte às suas origens, o PSDB dos meus sonhos, um partido vibrante, democrático, sem chefes, mas com líderes comprometidos com a verdade e com os compromissos firmados com o povo.

Com tristeza, deixo o PSDB. O partido que está aí não mais me representa.  Não mais representa os ideais e a prática de meu pai, Mario Covas, e mesmo quando evoca suas palavras em tom solene, falta-lhe a verdade e a coerência que marcou sua atuação política e hoje o seu legado para as próximas gerações.

Nós políticos somos eleitos para representar quem nos elegeu, que acreditam em nossos ideais e nos compromissos assumidos. Sou político com muito orgulho, mas acima de tudo, um cidadão brasileiro que quer ver esse país diferente, melhor e decente.

Muito obrigado.

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